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Patrono

Paschoal Apóstolo Pítsica

26/11/1938
11/05/2003

O Dr. Paschoal Apóstolo Pítsica é o Patrono da Academia de Letras de Palhoça.

 

CURRÍCULO


PASCHOAL APÓSTOLO DA CULTURA

DISCURSO PRONUNCIADO PELO ACADÊMICO JOSÉ ISAAC PILATI (OCUPANTE DA CADEIRA 9) NO II ENCONTRO ITINERANTE DE ESCRITORES CATARINENSES REALIZADO EM CAMBORIÚ, NO ANO DE 2004.

Edson Ubaldo disse que o vinho é um produto natural, que precisa do tempo e da mão do homem; e que o consumidor percorre um trajeto na apuração do gosto, até aderir aos tintos encorpados e guardados por longos anos: Nestes, em verdade, diz Ubaldo, está o vinho pleno, oferecendo seu buquê de mil e uma fragrâncias, que se bebe com os olhos, com o nariz e por fim com a boca.[1]

No dia 11 de maio transcorreu o primeiro aniversário do falecimento de Paschoal Apóstolo Pítsica (Florianópolis, 26.11.1938 – 11.5.2003), o Patrono maior das academias, o incentivador das Letras e dos livros, o Apóstolo da Cultura em nosso tempo, em Santa Catarina. Colhido numa safra extraordinária – de uma Santa Catarina de virada de século e milênio –, sobre ele, excelente uva de origem helênica, Xronos, ele o tempo, começa a realizar, lentamente, o trabalho de vinificação, de amadurecimento e de excelência. Nos séculos vindouros das Academias e da Cultura, este será o século de Paschoal Apóstolo Pítsica em Santa Catarina, o vinho encorpado que sintetizará um tempo e uma época.

Pasteur[2] foi quem descobriu a chave da conservação do vinho. Está no oxigênio. O hermetismo – da garrafa de rolha e do tonel de carvalho –, e a tênue respiração, são o segredo desse presente dos deuses do Olimpo.

Longe da prosaica vulgaridade mundana, guardado na memória da sua obra, Paschoal Apóstolo Pítsica incorporará o tempo ao seu legado, e representará, com certeza, uma das maiores legendas da cultura contemporânea no Estado de Santa Catarina.

Nós que o conhecemos, que convivemos com sua inteligência privilegiada, com a sua visão extraordinária, com a sua capacidade de trabalho fora do comum, com a sua generosidade inabalável; nós, que tivemos a ventura de ver nascer do seu entusiasmo e da sua humildade, novas instituições, novas academias, novos escritores, novos livros, novas iniciativas, temos que pagar o preço de não ver, em contrapartida, a completude de sua obra, no final daquele tempo necessário, que faz os vinhos encorpados, aqueles vinhos que irmanam os deuses e os mortais, na magia da cultura.

Ainda menino, perdeu o pai, com quem aprendera a alquimia dos negócios, o engenho de fazer do interlocutor um comprador. Guindado à condição de arrimo de família, colocado na condição de filho mais velho, acostumou-se a ser previdente, a antecipar-se aos fatos. Teve na figura da mãe, que lhe ensinou o grego, a ponderação e o equilíbrio, papel este que, mais tarde, seria desempenhado pela esposa Eloá.

Trabalhou no Instituto Brasileiro do Café, onde aprendeu a conviver com a burocracia estatal, habilidade que lhe seria preciosa mais tarde, quando, em prol de sua amada ACL, transitaria com desenvoltura por Palácios e secretarias.

Fora a sua vida de jovem jornalista, dos ardores dos tempos de Litoral (movimento e revista), da advocacia vitoriosa no Oeste, na Serra e na Capital do Estado barriga-verde, Paschoal destacou-se como escritor de obra diversificada e sólida; imortalizou-se pelo desempenho invulgar na Presidência da Academia Catarinense de Letras, e distinguiu-se, ademais, pelo carisma da própria pessoa. Era dinâmico, inteligente, generoso e dedicou os últimos dez anos de sua vida exclusivamente à cultura.

Como escritor, legou à advocacia catarinense: Defesas perante o Tribunal do Júri (em 1983); como acadêmico da Academia Catarinense de Letras ressuscitou a obra de seu Patrono Juvêncio Martins Costa com Flores sem Perfume (em 1986); como catarinense, publicou A Capitania de Santa Catarina (em 1992); como Presidente da ACL, contribuiu brilhantemente com a memória da instituição em Palavras e Registros (em 1993), Numa Fonte Cristalina (em 1997) e À Altura do seu Passado (em 2002); como integrante da Colônia Grega de Florianópolis contemplou a sua origem helênica com duas maravilhosas obras: Aquarelas Gregas (em 2000) e Memória Visual da Colônia Grega de Florianópolis (em 2003).

À testa da ACL por mais de uma década e meia, deu-lhe vida e brilho singulares. Resgatou-lhe o acervo e a memória; conseguiu-lhe a sede; conferiu-lhe presença em todas as instituições congêneres do país; semeou novas academias e apoiou e promoveu inúmeras obras e escritores. Criou a Coleção ACL, na qual resgatou clássicos como Luiz Delfino e Virgílio Várzea; e depois da sua morte ainda estão vindo a lume os seus últimos presentes, como a Antologia 2 ACL (nº 23 da série). Paschoal tinha pelas academias e pelos livros aquela devoção que os primeiros romanos tinham por Roma, antes do fausto e do império: saboreava os trabalhos acadêmicos como se fossem honores de uma magistratura republicana.

Como pessoa, era antes de tudo um forte: não lamentava, agia; não se diminuía, superava; perante os poderosos tinha a mesma dignidade com que tratava e cativava os simples; não esquecia um gesto de amizade, e administrava as traições com magnanimidade, perdoando sem prejuízo de cuidados preventivos. Quando na oposição, articulava os seus desígnios com tal habilidade, que os adversários muitas vezes lhe faziam a vontade sem saber.

O seu ingresso no Instituto Histórico e Geográfico de Santa Catarina deu-se em 8 de julho de 1981, e este foi o primeiro passo da sua trajetória como intelectual, sonhada já nos tempos de Otto da Gama D’Eça, o adorado mestre, e de Jorge Lacerda, o ídolo patrício, de quem aprendeu duas coisas importantes: lidar com escritores e lidar com o poder. Chegando da advocacia de São Joaquim, em 1979, com a esposa Eloá e os quatro filhos pequenos (Helena, Apóstolo, Gabriel e George), Paschoal vinha, conforme dito, com o plano em mente: entrar para o IHGSC e a Academia Catarinense de Letras. Afastado da Capital desde 1965, quando saíra para advogar em Palmitos, e depois em Maravilha, contou com a preciosa ajuda de Sílvia Amélia Carneiro da Cunha para restabelecer os contatos com a ACL: Paschoal, disse Sílvia Amélia, se queres entrar para a Academia, namora-a; ela é mulher, gosta de ser cortejada.

No IHGSC, logo foi eleito orador, e a cada efeméride, foi polindo a sua estrela com belos discursos, pronunciados com a imponência peculiar e a prática de anos de Tribunal do Júri, desde os tempos de Maravilha, onde fora o primeiro advogado da comarca e Presidente da Câmara de Vereadores. Ativo, lúcido e presente às sessões, seria um baluarte nas administrações dos presidentes Victor Antônio Peluso Júnior, Walter Fernando Piazza e Carlos Humberto Corrêa.

Em 20 de junho de 1985, finalmente, seria empossado na Cadeira 25 da Academia Catarinense de Letras, antes ocupada por Seixas Neto; e logo a 7 de julho de 1988, chegaria à Presidência do sodalício, cargo que ocuparia até a sua morte, em maio de 2003. Em 2002, o IHGSC realizou um curso intitulado: A Ilha de Santa Catarina: espaço, tempo e gente; convidado para falar sobre a cultura na Ilha, Paschoal Apóstolo teve oportunidade de abordar o seu assunto predileto: Academia Catarinense de Letras: à altura de seu passado. Em seguida, providenciou publicação do texto em livro, com ilustrações e fotografias, obra esta que hoje dá uma idéia da suntuosidade que foi a Academia sob seu comando.

Conheci Paschoal em Maravilha, em meados da década de 60. Apresentou-me Fernando Pessoa, Schopenhauer, Nietzsche e Pablo Neruda, emprestando-me obras e franqueando a sua biblioteca. Casou-se com minha irmã Eloá em maio de 1969, e desde então tivemos nele um baluarte e um refúgio. Após a morte da mãe, dona Anastacia (1990), ele nunca mais foi o mesmo. Em 2003, encaminhou todos os assuntos, como quem está para viajar e não quer deixar nada pendente. Olhava tudo e as pessoas como quem se despede. Enfrentou a doença com estoicismo, sem dramas, e no hospital, ainda rascunhou o estatuto da Academia de Letras de Palhoça, comigo e o fiel parceiro João Vaz Sepetiba. A cada amigo que chegava, recompunha forças, conversava e procurava esconder o seu verdadeiro estado. Estava feliz e realizado, e, não é de estranhar que várias pessoas o tenham visto em sonhos, depois da sua morte, sorridente, de terno azul e num campo de flores.

De fato, as homenagens que lhe estão sendo prestadas, à memória e à importante obra, têm sido freqüentes e constantes, em diversas cidades e especialmente nas Academias de Letras, que ele ou fundou ou apoiou. A Câmara de Vereadores de Florianópolis, depois de lhe conceder in memoriam medalha de mérito no dia do Município, acaba de lhe dar o nome a uma rua: aquela que dá acesso à sede atual da Seccional Catarinense da Ordem dos Advogados e à Academia de Letras (no Centro Integrado de Cultura). Assim, a advocacia, que levara Paschoal a peregrinar pelo interior do Estado no começo da vida profissional; e a Academia, à qual dedicou o resto dos seus dias – agora se interligam pelo nome dele. Como se passassem todos os dias por ele, para prosseguir. É a recompensa de uma vida, e com certeza, a justiça dos deuses do Olimpo.



[1] UBALDO, Edson. Vinho:um presente dos deuses. Florianópolis: Letras Contemporâneas, 1999, p.88-90.

[2] Id., p. 92.

 

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