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Acyr Ávila da Luz - Panegírico

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PANEGÍRICO

 AUJOR ÁVILA DA LUZ

28/08/1906 – 14/01/1974

 

 Por: Acyr Ávila da Luz

 

 Aujor nasceu em 28 de agosto de 1906, no então arraial de Coqueiros, pertencente, na época, ao Município de São José.

Descendia, tanto pelo lado paterno como materno, de imigrantes açorianos, chegados à Santa Catarina no início de 1749.

Seus pais foram: Jorge Corino da Luz e Aurélia Ávila da Luz.

Éramos seis irmãos e uma irmã, sendo Aujor o primogênito.

Como primeiro filho de uma mãe muito nova – 18 anos – recebia dela um carinho especial, desde a infância, adolescência e até mesmo adulto.

Era chamado em família de "Jojor", em vez de Aujor, nome formado pela sílaba "Au" de Aurélia e pela sílaba "jor" de Jorge. Este nome Aujor gerou, por toda sua vida, confusão em sua correspondência recebida, pois os remetentes julgavam tratar-se do vocábulo francês Anjou.

Como manifestação daquele carinho especial de minha mãe, recordo-me das deliciosas balas de chocolate e de manteiga que ela própria fazia, para, através de um eventual portador, enviar para o Rio de Janeiro, quando Aujor cursava a Faculdade de Medicina da Praia Vermelha.

Aujor fez o primário em escola pública de Palhoça, na qual já revelava seu pendor para se tornar um futuro escritor, dirigindo um pequeno jornal escolar.

O secundário fez, em brilhante curso, no Ginásio Catarinense, onde se distinguia em 1os lugares em sua turma, no período de 1920 a 1924.

Obtido o certificado de conclusão do Ginásio, ingressou em 1925, na Faculdade Nacional de Medicina, da Universidade do Brasil, no Rio de Janeiro.

No último ano da Faculdade fez "Residência", no Hospital da Marinha no Rio.

Em 1930, juntamente com seu grande amigo e primo, César Ávila, concluiu o curso Universitário.

Ao regressarem à Santa Catarina, durante a Revolução de 30, pegaram "carona" em um navio de guerra legalista, que trazia um contingente de fuzileiros navais, que vinha reforçar a resistência do Governo Legal de nosso Estado.

Desembarcaram no porto de São Francisco do Sul, escapando por sorte, ao desvincularem-se do referido contingente, do enfrentamento sangrento entre os fuzileiros e os revoltosos, que já haviam se apossado da cidade de Joinville.

Outra aventura bélica ocorreu, dois anos depois, em 1932, quando aderindo à Revolução Constitucionalista de São Paulo, junto, novamente, com seu primo amigo César Ávila, seguiram para São Paulo, a fim de servirem, como médicos, nas forças rebeladas paulistas.

Inexperientes estrategistas, na fronteira do Paraná com o Estado insurreto, foram presos pela polícia getulista, na ocasião em que, imprudentemente, consultavam um mapa, sobre a mesa de um bar e mandados para o então presídio político da ilha das Flores, no litoral da Baía da Guanabara. Ali, Aujor com seu temperamento calmo e comedido foi posto em liberdade dois meses depois.

Já César, mais explosivo e radical continuou na prisão, até que, em uma noite, conseguiu fugir a nado para o continente, indo refugiar-se em uma pensão dos tempos de estudante, situada no trecho final de Ipanema, ainda hoje conhecido por "Bar Vinte".

Aujor iniciou sua carreira de médico na região planaltina de nosso Estado, tendo fundado, com seu colega e, mais tarde, compadre, o Dr Ernesto Giorno, o primeiro hospital do então Município de Cruzeiro, hoje Joaçaba.

Após uns 2 anos no Oeste do Planalto, Aujor foi residir em Lages, onde casou-se, em 1937, com Teca (Dálvia Paim da Luz). Residiu em Lages quase 20 anos, tendo nascido naquela cidade seus 3 filhos: Beatriz, Roberto e Margot.

Nessa cidade serrana teve a oportunidade de enturmar-se com o grupo de engenheiros de Minas, do quadro do Serviço Geológico e Mineralógico do Brasil, do qual faziam parte Glycon de Paiva, Paulino Franco de Carvalho e José Alves, todos formados na Escola de Minas de Ouro Preto, engajados na pesquisa de petróleo na Região de Lages, no inicio da década de 1930.

Esta   convivência   com   o   selecto   grupo   de   geólogos,   fez aprofundar, ainda mais, o interesse de Aujor pela Geologia.

Em 1948 desceu para Florianópolis, com sua família.

Além de clinicar – diga-se de passagem, era, por excelência, um grande clínico, de diagnósticos certeiros – Aujor ocupou os seguintes principais cargos públicos, dentro de sua profissão e no magistério:

Chefe do Centro de Saúde de Lages.

Médico do Hospital de Caridade de Florianópolis

Diretor - Geral do Departamento Estadual de Saúde Pública de Santa Catarina.

Presidente da Comissão Estadual de Fiscalização de Entorpecentes de Santa Catarina.

Vice-Presidente da Legião Brasileira de Assistência – a L.B.A –, sessão de Santa Catarina.

Livre-Docente em Medicina Legal na Faculdade de Direito de Santa Catarina.

Médico Legista do l.M.L.

Lente Catedrático de Anatomia e Fisiologia Humana e Biologia, no Instituto Dias Velho, em Florianópolis.

Ocupou a Regência da Cátedra de História da América, na Faculdade de Filosofia da Universidade de Santa Catarina.

Professor substituto da Cátedra de História Moderna e Contemporânea, naquela Faculdade.

Membro do Instituto Histórico e Geográfico de Santa Catarina.

Membro do Conselho Penitenciário do Estado de Santa Catarina.

Membro da Comissão Estadual de Museus de Santa Catarina.

Ministrou aulas na Cadeira de Medicina Legal na Escola Paulista de Medicina

Da convivência com o povo do oeste catarinense - Região do Contestado - Aujor adquiriu grande cabedal de conhecimentos sobre os sangrentos conflitos que enlutaram o Planalto Catarinense e que ficaram conhecidos pela designação de "Guerra do Contestado".

Aujor registrou, em magistral livro, esses acontecimentos, dando-lhe o título de "OS FANÁTICOS", publicado em modesta impressão, no ano de 1952.

Bem mais tarde, 1999, através da Editora da Universidade Federal de Santa Catarina, saiu uma nova edição, agora em condigna impressão.

Como amostra desse livro, faço a transcrição de alguns trechos, que ao meu ver, dão uma idéia de sua qualidade:

No capítulo 3 – “O Homem” – descrevendo o homem do Planato Catarinense, traça o seguinte perfil dos mestiços, um dos componentes, junto com negros e brancos, da população do Planalto, Aujor registra:

Encontrando-se nas raças formadoras caracteres recomendáveis, altamente eugênicos, até agora injustamente olvidados, com o correr do tempo estes melhores atributos se fixam predominando sobre o que há de inferior no mestiço. Pois o negro era dócil, trabalhador, afetivo, alegre, com aptidões para os ofícios manuais e com sentimento de justiça, do bem e de coletivismo. O índio era moral: punia o homicídio, o adultério, a perfídia e o roubo; se era vingativo, era bravo e altivo; se indolente, mas observador da natureza; se desconfiado, mas hospitaleiro.”

Mesmo certas manifestações inferiores se explicam: a desconfiança e o espírito de vindita do índio decorriam da perseguição do branco que o queria escravizar; a superexcitação da negra, da mulata e da índia corria mais por conta da inclinação poligâmica do português e do sistema de escravidão.

Depois, é preciso buscar no português, que até agora tem sido sem discussão considerado o elemento superior, mas que de fato tem uma etnogenia bastante complexa e heterogênea e no qual corre uma forte dose de sangue negro e mouro, alguns destes caracteres inferiores que, por atavismo, tivessem voltado à tona nos produtos de sua mestiçagem. A sua genesia violenta tendendo para a poligamia é incontrovertida e proveio do sangue e do convívio com o mouro muçulmano. As suas características psicológicas ainda estavam tão frouxamente fixadas que, quando veio para o Brasil, houve uma transformação na sua mentalidade: o português que em Portugal se mostrava dócil, resignado, pacífico, obediente e tradicionalista, no Novo Mundo perdeu o tradicionalismo, a cega submissão, a obediência e o respeito à autoridade, e se tornou mais corajoso, mais instintivo e mais violento. Ficaram, entretanto, no fundo de sua alma, muitas das magníficas qualidades que possuía: a afetividade, a gravidade, a diligência, a tenacidade, a previdência, a honra, a franqueza e a lealdade.”

No capítulo 6 – “Os monges”, escreve:

Quando, cerca de 1895, apareceu, pela primeira vez, nos sertões do planalto de Santa Catarina, em suas constantes e vagas peregrinações, o monge João Maria de Agostinho, a gente crédula e mística acolheu-o como a um enviado do Céu.

Vinha do norte, do estado do Paraná.

Em 1893, durante a Revolução, da qual era simpatizante, andava pelo Rio Grande do Sul. Sua existência é assinalada no Paraná, durante a campanha de Canudos. Então seu prestígio, entre os sertanejos, já era enorme. E Euclides da Cunha, assinalando-o em Os Sertões, já vislumbrava o destino trágico de sua pregação: "A aura da loucura soprava também pelas bandas do sul: o monge do Paraná, por sua vez, aparecia nessa concorrência extravagante para a história e para os hospícios".

Não foi para o hospício e ficou para a história...

Enveredou novamente para o sul. Então aparece, no estado de Santa Catarina, em Canoinhas, Curitibanos, Lages e Campos Novos.

Monge – é bom explicarmos já –, que na acepção da língua quer dizer religioso de mosteiro, para o nosso caboclo significa outra coisa: é um homem que se tornou, pela sua vida austera de anacoreta e pelas rezas, um profeta, um santo, um mediador entre Deus e a sua criatura... Corresponde mais ou menos aos beatos nordestinos.

Ainda sobre o livro, transcrevo aqui, alguns trechos em que o renomado historiador catarinense, Professor Walter Piazza escreveu, no POSFÁCIO dessa 2ª Edição:

É um novo tratamento ao tema "Contestado". Trata-se de um estudo de psiquiatria social ou psicologia social, referente a uma área bastante abrangente e expressiva do Planalto Catarinense, onde o Autor viveu e conviveu com o ambiente planaltino e, também, com personagens daquela grande odisseia. O livro de Aujor Ávila da Luz é um marco, também, quanto aos estudos que sobre a matéria foram feitos.”

Um outro trabalho de Aujor foi a monografia "SANTA CATARINA NA INDEPENDÊNCIA", agraciada com o 1° prêmio no concurso promovido pelo Governo do Estado de Santa Catarina, nas comemorações do sesquicentenário da Independência do Brasil, em 1972. Para o referido concurso usou o pseudônimo de “Barão do Passa Vinte”.

Esta obra foi editada em 1977, pela Associação Catarinense de Medicina, quando Aujor já havia falecido.

Também aqui, tomo a liberdade de transcrever alguns trechos do depoimento do médico e historiador Oswaldo Cabral sobre Aujor, constantes nessa obra:

"Aujor Ávila da Luz era um homem tranquilo, sisudo, bonachão que nunca encontrei de passo apressado, caminhando da mesma forma com que falava, sem atropelos, sem pressa". Mais adiante, escreve: "Aujor Ávila da Luz foi um estudioso que jamais esbanjava as horas de sua vida.

As de folga, destinava-as aos arquivos, em busca de assentamentos para os seus estudos e trabalhos. Foi um homem bom – um homem que não nutria invejas nem desafeições, estimado pelos colegas de profissão e pelos confrades do magistério, como pelos subordinados e companheiros de repartição – um homem que recebia sobranceiro as críticas aos seus trabalhos como uma verdadeira colaboração, aceitando-as com humildade, até jamais revidando-as com uma palavra áspera ou agressiva, mesmo às que lhe pareciam injustas ou improcedentes. Tinha, às vezes, frente à ignorância ou a incompreensão, aquele sorriso irônico, tão seu, que esboçava, indulgenciando o opositor, sorriso que era o ponto final, que eram as reticências colocadas para finalizar qualquer possibilidade de discussão...

Era a sua maneira de ser – e foi amigo dos seus amigos, leal e sincero, e um colega que jamais pisou fora da ética profissional".

Uma 3a obra foi publicada no ano de 2000.

“SANTA CATARINA, QUATRO SÉCULOS DE HISTÓRIA” – com base nos papéis originais deixados por Aujor, organizados e devidamente comentados pelo Professor Carlos Humberto Corrêa, editada pela "Editora Insular", custeada pelo filho do autor, Dr. Roberto Paim da Luz.

Acrescendo aos depoimentos imparciais e isentos de Walter Piazza e Oswaldo Cabral, não posso deixar de abordar outro aspecto do caráter do Aujor: a sua constante preocupação, mesmo ainda quando muito jovem e universitário, com a educação de seus irmãos mais novos.

Como prova dessa preocupação, transcrevo aqui os dizeres com que, em um cartão, assinalando sua maioridade, ainda estudante universitário no Rio de Janeiro, enviou aos meus pais:

Rio de Janeiro, 28-VIII-1927

Queridos Paes

Hoje 28 de agosto, dia em que attinjo a minha maioridade, em que, por lei, os filhos se desprendem dos paes, quero agradecer-lhes todos os sacrifícios cuidados e beneficios que me vindes prestando há vinte e um annos, e enviar a promessa do meu futuro, de que, tudo farei para illustrar e dignificar a nossa família, para educar, instruir e encarreirar os outros irmãos, para que formemos uma irmandade amiga e unida em todo o tempo, para que lhes possa garantir uma velhice cheia de comodidades e felicidades. Podem os senhores estar certos de que nenhuma outra cousa, nenhum outro motivo me move na lucta – não póde deixar de ser lucta, uma vida de estudos e de trabalhos, nem sempre agradáveis – que venho batalhando, há anos, primeiro no gymnásio e agora na Universidade. Os senhores podem estar confiantes no futuro, que eu nao falsearei deminha promessa.

Dos irmaos quero a obediência e o respeito paraque possa os conduzir e aconselhar na vida. Este respeito e obediencia os senhores podem ir lhes inspirando.

Si a lei exime na maioridade a dependência do filho para com o pae, nao deixarei, entretanto, de receber com a mesma antiga submissão e dedicação os conselhos e ordens.

Desejando-lhes saúde e felicidade e pedindo suas bençãos.

Seu filho Aujôr.”

Quanto a mim, foi como um segundo pai: além de ajudar no custeio de minha formação profissional, foi o responsável em guiar-me para a escolha do ingresso em uma Escola de renome nacional: a Escola Nacional de Minas e Metalurgia de Ouro Preto, na época pertencente à Universidade do Brasil.

Resumindo, direi, que materializou em mim seu entusiasmo pela Geologia.

Seu encanto pelos minérios já havia aflorado nos tempos que ainda cursava o Ginásio Catarinense, confirmado quando da visita que fez às ocorrências de magnetita e fosfato, em Anitápolis, junto com o renomado naturalistas Pio Corrêa, em meados da década de 20.

E foi da recordação dessa visita, a mim relatada, que muitos anos depois, quando eu ocupava a Direção-Geral do Departamento Nacional de Produção Mineral, que resultou o "Projeto Anitápolis", o qual revelou a importância da jazida de fosfato do Alto Rio Pinheiro, em Anitápolis/SC.

Com pouco mais de 67 anos de idade, em 14 de janeiro de 1974, Aujor encerrava sua rica e polimorfa vida, mas continuando sempre a ser lembrado pelos seus familiares e amigos.

 

OBRIGADO.

 

Florianópolis, 15/07/2010.

 

 
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